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29 junho 2015

La Biciteca

Ontem enquanto passeava no Metropoli Gijón vi numa das bancas uma série de livros dedicados a ciclismo. Agora como ando mais ciclista que nunca fiquei encantado com a quantidade de livros que há sobre este tema.

E quase todos estão à venda em www.labiciteca.com uma livraria e editora de Madrid dedicada ao ciclismo. Vale a pena ver o catálogo!

Eu fiquei particularmente com vontade de comprar um livro que se chama "Cuentos del Pelotón" sobre histórias curiosas que passaram na Volta à França ao longo dos tempos. Mais tarde ou mais cedo esse livro tem de parar aqui em casa!


12 janeiro 2015

Los 88 peldaños del éxito

Terminei esta semana de ler este livro que me tinha oferecido a Maria Rivas no meu aniversário. Confesso que era um bocado reticente com os livros de auto-ajuda mas vou pouco a pouco gostando mais de ler estas coisas.

É um livro leve, que se lê muito bem porque tem esses 88 capítulos que diz o título e sobretodo é bastante práctico e orientado a uma suposta acção. O autor escreve bem e apesar de jovem e de super multi-facetado não é demasiado convencido, coisa que passa a muitos destes self-made-men jovens...


Los 88 peldaños del éxito

21 janeiro 2011

Se algum dia quiserem escrever um livro

Aqui fica uma lista dos 10 factores-chave para ser um bom escritor.
A autora é Diana Morales, Coordenadora dos workshops literários do Portaldelescritor.com.

Planifica tu libro. Escribir un libro es como construir un edificio: antes de empezar a escribir asegúrate de tener un plano. Piensa bien que quieres contar, cómo vas a organizar la información en capítulos, cómo vas a terminarlo.

No te dejes vencer por la página en blanco. No olvides que todo lo que escribas puede ser después corregido, re-escrito o incluso borrado, así que, simplemente, escribe. Sin prisa, sin presiones, pero con constancia. Recuerda que no se trata de escribir una obra maestra, solo de terminar tu libro.

Lee. La lectura es el oxíggeno del escritor, te inspirará y te motivará. Si estás escribiendo una novela o un poemario, lee novelas y poemas. Si estás escribiendo un libro de no ficción –un ensayo, un libro de auto-ayuda, un recetario...- lee libros parecidos. Leer es el calentamiento de la escritura.

Imponte un horario fijo de escritura. Puede ser dos horas cada tarde, las mañanas del fin de semana, o tres horas el jueves por la noche... No importa. Lo esencial que, una vez decidas tu horario de escritura semanal, lo respetes. Solo alcanzarás la cima de la montaña si caminas aunque sea poco a poco.

Ten siempre a mano un diccionario. Es la herramienta básica del escritor, tanto para escribir una novela como un libro de no-ficción; en especial el Diccionario de Sinónimos y Antónimos. Te ayudará a expresarte mejor y a no repetirte. Si escribes ficción (novelas, relatos, poesía...) te será también muy útil un Diccionario Ideológico.

Busca tu propia voz. No intentes escribir de forma complicada, con frases largas o con un lenguaje complejo. Sé tú mismo/a. Ten en cuenta que el primer propósito del lenguaje es transmitir ideas, por lo que la claridad y la sencillez pueden ser nuestros mejores aliados, especialmente si estás escribiendo tu primer libro. Imagina a tu futuro lector como a un amigo, no como a un juez.

Documéntate a cada paso. Necesitas la precisión, la concreción y la exactitud para que tu libro sea interesante. Esto es así para cualquier tipo de escrito: si eres novelista y tu personaje viaja a Londres busca nombres de calles o lugares concretos de la ciudad. Si habla con un antropólogo, busca los términos que éstos utilizan para expresarse. Y si escribes un libro de no-ficción reunir datos es un paso esencial para que éste resulte útil a tus lectores.

Busca opiniones externas. Pásale tu libro a amigos, a conocidos o –mejor aún- a personas que creas que reúnen las características de tus futuros lectores. Pídeles su opinión de forma muy concreta: qué les ha gustado más de tu libro y qué menos; si en algún momento se han aburrido o si hay algo que no se entiende bien. No te pongas a la defensiva e intentes convencerles de que tu libro es muy bueno: acepta sus opiniones y tómalas en cuenta a la hora de revisar.

Revisa lo escrito. Relee lo que vayas escribiendo y ve haciendo los cambios que creas oportunos. Cuando termines el libro, déjalo reposar unos días y después vuelve a leerlo con nuevos ojos. No temas reorganizar los capítulos, alterar frases o expresiones o incluso recortar trozos enteros. Las palabras son tu material de trabajo, moldéalas como necesites.

No olvides que a escribir se aprende escribiendo. Nadie nace escritor. El primer libro siempre cuesta más y puede que el resultado no nos satisfaga al 100%... No importa, tómatelo como una práctica: el próximo saldrá mejor. Escribir es como cualquier otra actividad en la vida, cuanto más la practicamos, mejores son los resultados.

09 novembro 2010

Un Zoo en Invierno

Pouco a pouco vou-me dedicando ao mundo do comic.
Devo estar quase a chegar aos 10 livros de comic lidos nos últimos 2 anos motivados sobretudo pela Ana (e um bocado ao longe pelo Bernas: não é que falemos sobre isso mas sempre achei curiosa a paixão que tem pelos comics).
Pode parecer pouco só 10 livros mas tendo em conta que leio muito menos do que nos tempos mais aureos de estudante é uma média muito, muito boa...

Este fim-de-semana foi a vez de um livro de Jiro Taniguchi, "Un zoo el invierno". Foi um livro que a Ana trouxe da biblioteca e que apanhei na cama antes de me deitar e que li com ganas em duas noites seguidas.
É um livro simples mas bem escrito, com um estilo de desenho bonito e que se lê rápido e com prazer.
Recomendo.

15 julho 2009

13,99€

“A diferença entre ricos e pobres é que os pobres vendem droga para comprarem uns Nike, e os ricos vendem os seus Nike para comprar droga”.

Esta é uma das frases que estão neste livro que acabo de ler. O seu autor é Frederic Beigbeder (1966), que foi durante anos um brilhante criativo numa agência de publicidade de Paris, e que depois deste livro se passou a dedicar a tempo inteiro à escrita. É que este livro é o relato mais corrosivo e destruidor do mundo fantástico da publicidade e foi escrito exactamente para cumprir o seu propósito: fazer com que o despeçam da agência!

E conseguiu porque questiona a moral do seu ofício de publicitário (e também do nosso de marketeers) de uma maneira totalmente sem papas na língua. É muito recomendável para quem gosta deste mundo.

29 junho 2009

Buena York

Acabei de ler este interessante livro com a história do Gonçalo Gil Mata em viagem entre Buenos Aires e Nova York. 40.000km em 7 meses atravessando todo o continente americano. Adoro a literatura de viagem: fica-se com formigueiro nos pés, mesmo para quem nunca conduziu uma moto...

O livro fala em detalhe de todo o percurso com muito boas dicas para quem algum dia queira fazer uma viagem parecida ou passar por alguma parte do percurso.

O que mais gostei contudo foi uma passagem em que ele fala do facto que as coisas belas, a partir do momento em que são vividas diariamente e fazem parte da nossa rotina, deixam de nos chamar a atenção.

É muito normal seguir na estrada acompanhado por enormes pássaros. Vejo tantos que, infelizmente, já me habituei. Nos primeiros tempos, era bem capaz de parar a mota e disparar maravilhado. Agora sinceramente já os vou ignorando. Não há como combater esta desvalorização do quotidiano. O momento da apreensão de uma novidade é inigualável e esse prazer é intrinseco ao facto de nos obrigar a trabalhar as estruturas de percepção, a adaptá-las a essa nova combinação de estímulos. Arrisco dizer que tenho desperdiçado alguns momentos e reconheço que há pouco a fazer sobre isso, como pouco podia eu fazer quando a caminho do emprego me sentia incapaz de saborear os inúmeros pormenores bons da rotina que levava, cheia de ex-novidades que em tempos me encantaram.
Quando do outro lado do planeta uma águia esvoaça à minha frente e não me emociono, concluo que na raiz da felicidade vive a mudança e que dificilmente servirá para sempre uma qualquer fórmula absoluta.

24 junho 2009

La fiesta del Chivo

Ler em espanhol leva-me um bocado mais de tempo. É natural porque não é a nossa lingua e as palavras não fluem tão bem.
Felizmente, o que tenho lido tem sido sempre muito bom por isso apesar de mais lento avanço sempre com um prazer tremendo. Claro que o tenho de agradecer à Ana, que me ofereceu este livro do Mario Vargas Llosa, escritor que conhecia mas que nunca tinho lido.

Este é um romance passado na República Dominicana no final da ditadura de Trujillo, misturando diferentes fases temporais e diferentes histórias. Está construído de uma maneira muito inteligente, com a doçura do Caribe e com a frieza das ditaduras. Gostei a sério deste livro e recomendo-o vivamente.

O que mais pena me deu foi ter ido duas vezes à República Dominicana, com a viagem de finalistas da Universidade e com o prémio que ganhei nos chocolates Mars :), e nunca ter lido isto a fundo, nunca ter sabido a história do país, nunca me ter interessado mais sobre as pessoas. Aprendida a lição.

17 junho 2009

Juan José Millás

Juan José Millás é um escritor famoso em Espanha e um dos preferidos da Ana. Para além disso escreve uma coluna na revista de Domingo do El País que é sempre lida aqui em casa.

Estávamos nós a passear na Feira do Livro de Madrid e estava ele a dar autógrafos numa das tendas das editoras. A Ana decidiu oferecer-me um livro dele (escolhemos o último de contos) e lá fizémos a pequena fila para a assinatura.

"Gosto muito do que escreve. Ele é português e é o primeiro livro que vai ler seu". Eu sorrio, passo-lhe o livro para assinar e digo-lhe para o dedicar à Ana e ao Tiago.

Para ana y Tiago con un fuerte abrazo y mis mejores deseos de futuro, Juanjo Millás

A Ana desilude-se. Queria mais, queria uma dedicatória mais literária, mais de acordo com o que lhe tinha contado de nós. "Para que é que eu fui dizer que era o teu primeiro livro dele, que sou fã, que és português?". Humpf.

Não é fácil ter fâs e estar sempre à altura do que eles esperam de nós. Muito menos quando estamos em sessão de autógrafos...

22 abril 2009

O Livro Negro do Empreendedor

A minha última leitura foi muito menos novelesca e mais prática. Parece um livro chato de negócios mas no final até é uma leitura muito leve e interessante.
Ainda por cima nesta fase em que ando cheio de ideias para fazer coisas novas é um livro que vem a calhar...

Para além disso a temática de ver as coisas pelo lado negativo é muito interessante e sempre me fascinou: o próprio autor no prólogo do livro comenta que colocou "factores críticos de sucesso" no google e saiu-lhe 20.900 resultados, logo a seguir escreveu "factores críticos de fracasso" e saíram nada mais nada menos que... 2 resultados!!

Muito provavelmente não está traduzido para português, mas se gostarem de ter um exemplar avisem. E se alguma editora estiver interessada eu ofereço-me para traduzir!!

21 abril 2009

Enquanto Salazar dormia

Sou um leitor preguiçoso. Quando encarrilo a ler alguma coisa que me gosta consigo estar umas boas horas a ler de seguida mas normalmente, e com todas as geringonças que uma pessoa tem para passar tempo (leia-se a PSP) a verdade é que o grande momento de leitura que é o pré-sono está a ficar esquecido.

Isto a propósito do último livro que li e que levo uns meses a ler. Chama-se "Enquanto Salazar dormia" e é do Domingos Amaral. O livro lê-se muito bem (por isso eu achar que sou preguiçoso por ter demorado tanto a terminá-lo) e tem um enredo passado na Lisboa da 2ª Guerra com espionagem, suspense e amor à mistura.
É interessante ler as movimentações dos serviços secretos ingleses e alemães, a reconstituição histórica de Lisboa e os hábitos da sociedade salazarista.

Até aqui é onde vão muito bem as parecenças com a capa do filme Casablanca: a pior parte são as relações amorosas que transbordam o limite para o sexo mais vulgar com uma linguagem que "cai mal" em quem lê e na própria elegância do personagem.

Seja como for, como romance histórico lê-se muito bem...

25 fevereiro 2009

Pornocracia no País Real

Estes últimos dias em Lisboa, tive a oportunidade de me pôr a par das notícias que fazem os nossos telejornais e que não me chegam aqui através das capas dos jornais que vejo diariamente via net.
E uma das que mais gostei foi a retirada de 5 exemplares (eram os que havia na banca) do livro "Pornocracia" na Feira do Livro de Braga pela PSP após várias queixas sobre o conteúdo pornográfico do livro.

O livro é um romance de Catherine Breillat, editado em 2003 que por dentro não tem mais nada do que texto mas por fora (e com muita abundância) tem uma pintura de um corpo de mulher nu.
A pintura é de Gustave Coubert (1819-1877), e apesar de censurada em Braga, está disponível a crianças de todas idades no Musée d'Orsay, em Paris.

Parece que os livros foram devolvidos e que já lá estão de volta à banca mas fica a história...


Uma das muitas notícias que saíram sobre o tema:
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=1153310

17 dezembro 2008

4 horas por semana


Acabo de ler o livro "4 Horas por semana" escrito por Tim Ferriss. Em primeiro lugar, obrigado Nuno pela prenda!
Este livro, apesar de algum cepticismo inicial porque os típicos livros de auto-ajuda não me estimulam muito, surpreendeu-me pela maneira clara, simples e próxima da realidade como ele expõe primeiro os problemas e depois a solução que encontrou.

Claro que tem um pouco do típico estilo paternalista e gabarolas dos norte-americanos, mas se ultrapassarmos isso vamos acompanhando uma evolução que eu julgo nos gostaria a todos.
Eu senti-me muito reflectido nos seus comentários e felizmente já cumpro alguns dos seus conselhos - um que gostei por exemplo é o da mini-reforma...

No fundo, o que ele tenta explicar é que o trabalho é um meio e não um fim em si mesmo. O trabalho serve para nos dar a possibilidade de disfrutar a vida através do rendimento que ganhamos com ele. Nem toda a gente o percebe e julga que trabalhar "é a vida" e que passar o tempo no escritório é o nosso propósito enquanto adultos...
A verdade é que não é: há muita vida aí fora para aproveitar!!

Claro que com isto não quero dizer que nos devemos despedir e pôr uma mochila às costas. Há maneiras de o fazer de uma forma controlada e, pasme-se, mantendo o actual trabalho!

Não prometo que ao ler o "livro que já mudou mais de 500.000 vidas" a coisa resulte com todos mas ao menos serve para pensar...

05 dezembro 2008

Cavaleiros à antiga

Sigo com o meu duplo momento de cultura por semana... Afinal não custa muito e continuo a poder seguir o caminho da profissionalização como jogador de Playstation! :-)

Na quarta-feira recebi aqui o Nico (amigo da Ana - o meu Playstation Buddy) e estivémos quase 3 horas a jogar durante a tarde e mesmo assim deu tempo para ir ao curso de rock. Claro que enquanto ouvia a importância do Punk na história do rock estava também a imaginar aquele golo que lhe marquei, cruzamento do Izmailov e toque meio de lado do Vukcevic...



Enfim, ontem ao final da tarde foi dia de visita à Biblioteca Nacional (é o edifício da foto). A parte dos livros propriamente dita está fechada a visitantes. Temos de ir com um pedido específico de um livro para nos deixarem entrar. Parece-me bem, o que evitam é que entrem por ali dentro as hordas de turistas normais e estraguem o silêncio de quem realmente trabalha. Pela quantidade de gente a sair de lá e pela pinta de intelectuais, há realmente gente estudiosa nesta cidade...


Para além disso a BN tem também uma parte com auditórios, uma pequena loja e um museu. Programação bem cuidada, umas coisas giras na loja e para aproveitar toda a visita meti-me na exposição "Amadis de Gaula. 1508: quiñentos años de libros de caballerias" uma exposição sobre as "novelas de cavalaria". A verdade é que entrei na exposição porque não tinha mais nada para fazer e queria aproveitar a visita, mas adorei o tema, como está contado e como está montada.


Muito interessante a importância destas novelas para o seu tempo. Com a máquina de impressão do Guttenberg a dar os seus primeiros passos (estava lá um original - magnífico!) estas novelas foram os primeiros best-sellers de literatura da história, vendendo cópias entre a meia-dúzia de nobres que sabia ler e chegando até a edições de cordel para ser mais prático e barato.


O conhecimento não ocupa lugar. Para saber mais:

21 setembro 2008

O último voo do flamingo


Mia Couto. É longo mas vale a pena...

"Então ela contou. Eu repetia palavra por palavra, decalcando sobre a voz cansada dela. Rezava: havia um lugar onde o tempo não tinha inventado a noite. Era sempre dia. Até que, certa vez, o flamingo disse:
– Hoje farei meu último voo!
As aves, desavisadas, murcharam. Tristes, contudo, não choraram. Tristeza de pássaro não inventou lágrima. Dizem: lágrima dos pássaros se guarda lá onde fica a chuva que nunca cai.
Ao aviso do flamingo, todas as aves se juntaram. Haveria uma assembleia para se conversar o assunto. Enquanto o flamingo não chegava, se escutavam os pios em rodopios. Se acreditava em tais ditos? Podia-se e não. Fosse ou não fosse, todos se demandavam:
– Mas vai voar para onde?
– Para um sítio onde não há nenhum lugar.
O pernalta, enfim, chegou e explicou – que havia dois céus, um de cá, voável, e um outro, o céu das estrelas, inviável para voação. Ele queria passar essa fronteira.
– Porquê essa viagem tão sem regresso?
O flamingo desvaloriza seu feito:
– Ora, aquilo é longe, mas não é distante.
Depois ele foi internando-se nas árvores sombrosas do matagal. Demorou. Só pareceu quando a paciência dos outros já envelhecia. Os bichos de asa se concentraram na clareira do pântano. E todos olharam o flamingo como se descobrissem, apenas então, a sua total beleza. Vinha altivo, todo por cima da sua altura. Os outros, em fila, se despediam, Um ainda pediu que ele desfizesse o anúncio.
– Por favor, não vá!
– Tenho que ir!
A avestruz se lhe interpôs e lhe disse:
– Veja, eu, que nunca voei, carrego as asas como duas saudades. E, no entanto, só piso felicidades.
– Não posso, me cansei de viver num só corpo.
E falou. Queria ir lá para onde não há sombra, nem mapa. Lá onde tudo é luz. Mas nunca chega a ser dia. Nesse outro mundo ele iria dormir, dormir como um deserto, esquecer que sabia voar, ignorar a arte de pousar sobre a terra.
– Não quero posar mais. Só repousar.
E olhou par cima. O céu parecia baixo, rasteiro. O azul desse céu era tão intenso que se vertia líquido, nos olhos dos bichos.
Então, o flamingo se lançou, arco e flecha se crisparam em seu corpo. E ei-lo, eleito, elegante, se despindo do peso. Assim, visto em voo, dir-se-ia que o céu se vertebrara e a nuvem, adiante, não era senão alma de passarinho. Dir-se-ia mais: que era a própria luz que voava. E o pássaro ia desfolhando, asa em asa, as transparentes páginas do céu. Mais um bater de plumas e, de repente, a todos pareceu que o horizonte se vermelhava. Transitava de azul para tons escuros, roxos e liláceos. Tudo se passando como um incêndio. Nascia, assim, o primeiro poente. Quando o flamingo se extinguiu, a noite se estreou naquela terra.
Era o ponto final. No escurecer, a voz de minha mãe se desvaneceu. Olhei o poente e vi as aves carregando o sol, empurrando o dia para outros aléns.
Aquela era a minha última noite desse retiro nos matos. Manhã seguinte eu já entrava na vila, como quem regressa a seu próprio corpo depois do sono."